Domingo, Março 11, 2012

Medo do medo.



Uma onda de medo atravessa minhas sensações ultimamente. Mas não é qualquer medo. É um medo de raízes sociais, enterradas no mais profundo enlameado caldo cultural. Pressinto que de um momento para o outro, líderes de diferentes frentes religiosas, politicas, "ideológicas", econômicas e cibernéticas irão, como uma avalanche moralizadora, impor suas verdades, coagindo os outros através de maneiras possíveis. Através de leis, intimidações públicas, permissividade midiática, da influência do estágio avançado (e animalesco) de reprodução do capital. Através de uma sociedade ultra violenta, civilizadamente polida com um verniz selvagem - ao transportar as ações privadas para o público, com baixo senso ético, priorizando-o como visão pública do privado. Através de uma sociedade que impõe a negação ao próximo, substituindo-o por pequenas frases sem importância nos jornais, por moedas, entorpecentes (aquilo que entorpece os sentidos, o bom senso), jogando-os ao descaso, pela paranóia, pelo egoísmo, pela xenofobia e preconceito. Neste caminho que muitos de nós trilhamos, esquecendo de nós mesmos, entre a buscar pelo prazer incessante e o desespero pela vontade de vencer, de possuir cada vez mais. Insaciáveis dormentes.

Esse medo é avassalador. E não é sonho, é real e está acontecendo agora. Mas sua força, ainda não é uma onda incontrolável. É o quebra mar, em vai e vem contante.

Tenho a sensação de guardar esse medo de maneira latente, a espreita, nas sombras, esperando o momento certo para atacar. Esse medo é o eco das massas nas praças, que também sentem o rastro medo, ainda que inconscientemente, pairando no ar, logo atrás de nós. O grito por justiça, liberdade e amor que joga o medo contra o medo, vontades contra vontades, joga na nossa cara que nós somos os únicos responsáveis por produzirmos os causas e as consequências de nossas próprios medos.
Esse medo é o que conserva os poderes, que mantem dogmas, que tenta se eternizar numa vida em que a única certeza é ceder. Dar lugar, abrir espaço. Morrer. Talvez o grito, a marcha, a dor, anuncie desde já que o medo é o temor do futuro, é o orgulho em querer se conservar do desconhecido. O medo dá medo. Mas ao ve-lo empurrar homens para a aceitação, o respeito, a compreensão e o entendimento, o medo é o verdadeiro nome do progresso. Mesmo que "evoluir" seja ainda um projeto de um horizonte distante.
Por aqui, ainda lutamos, erramos, acertamos, e seguimos tentando pacientemente vencer o medo de cada dia. O santo medo de cada dia, que se converterá no remédio do amanhã.


Menina de pano mede o medo pelo nariz.

Sábado, Novembro 19, 2011

Trago seu amor a qualquer preço!

Essa semana fui almoçar em um dos refeitórios da Universidade e acabei me deparando com uma conversa que gerou muitas reflexões. A coisa foi bem simples. Peguei a comida, sentei e começei a comer... e a viajar. Lá pelas tantas, entre pessoas passando com suas bandejas, conversas, gargalhadas, ouço uma frase ecoando a cima das outras. Frase que me fez parar de viajar na hora e a prestar atenção na conversa travada entre duas moças. (dissimuladamente a minha fisionomia ficou inalterada, mas o cérebro... ham, esse trabalhou na velocidade do assunto).


"Ela me disse tudo sobre a minha vida, sem eu sequer falar nada! Você precisa ir nela, vai adorar"

Desculpa, não deu para não prestar atenção na conversa. Por vários motivos.
1) A frase pairou na mesa solitária, então não tinha como não ouvir.
2) O tema normalmente gera certo suspense, afinal, uma mulher com supostos dons de adivinhação havia acertado alguma coisa - no caso, "tudo". Tudo o que?
3) O mercado da adivinhação tem clientela variada (entre loucos, medrosos, malucos, ciumentos, os universitários, que reúnem possivelmente todas essas caracteristicas e mais, estavam nas estatísticas).
4) Havia o fato de estar sozinha, não ter nada para fazer naquele momento além de comer e parabenizar a jovem sentada próxima de mim pela coragem de ter ido a uma Dona Jussara Trago Seu Amor A Qualquer Preço, Pode Confiar, É Garantido.

Resumo da História
Ela havia ido numa advinha oriental, pedido conselhos sobre sua vida (provelmente certa de ouvir soluções para seus problemas), ouvindo respostas que remetiam a sua trajetória de vida. Isso logo passou a indicar que a advinha era realmente "boa", o que me faz supor, que os conselhos foram interessantes e "úteis". Por isso ela aconselhou a amiga a ir nela também. "Ela vai falar tudo sobre a sua vida, vai ver só".

A parte das causas e consequências de conselhos dados, e o que se faria a partir deles, me peguei pensando o quanto somos inseguros a respeito de quais decisões devemos tomar quando uma problema precisa ser solucionado. Não que não precisamos ouvir conselhos quando dúvidas, incertezas surgem ou quando não conseguimos identificar de onde vem as falhas, quando eles aparecem. Conselhos muitas vezes orientam, direcionam, incentivam e ajudam a melhorar quando analisados criticamente, racionalmente.
O problema é que muitas vezes as decisões precisam partir de nós e ninguém, nem mesmo os homens mais sábios e doutos da terra, com poderes quase místicos podem adivinhar. Coisa que nos chateia, nos tira de nossas zonas de conforto. Isso demosntra a atitude de não querer se responsabilizar pelo erro que podemos vir a cometer caso erremos em nossas decisões. Deixar que o outro decida tira a culpa de nossas costas, bem como o peso da responsabilidade em executá-la.
Tomar decisões importantes é difícil. Eu sei disso. Todos sabem. Mas se desabonar da decisão é não querer vencer a marcha pelos próprios pés. E culpabilizar os fatores externos pelos nossos erros, nós já fazemos isso todos os dias quando reclamamos do governo, da política, da guerra, da vida em geral. Nós apenas recebemos na ressaca da onda, aquilo que enviamos para o mar.
Talvez o melhor conselho a seguir seja: Refletir, analisar, pensar e se perguntar se o que desejamos faz realmente sentido para as nossas vidas. O negócio é espantar a insegurança pra lá, e tomar as rédias da própria vida nas mãos. Pois assim como a moça quer respostas para a sua vida, eu também as quero para minha. Por isso penso, logo existo.


Menina de pano não é fofoqueira não! Apenas analisa aspectos da vida cotidiana.

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

Fora da Ordem.

A crise caminha por um tapete vermelho.

Entre flashes, sorrisos, saudações e comprimentos uma crise socioeconômica sem precedentes caminha em direção indefinida. Longe de pensar que ela anda sozinha, essa crise vem acompanhada dos subsídios culturais que circulam, em trocas, aceitações e negações pelo mundo afora, mostrando a força da ocidentalidade frente a morosa aceitação de que algo inquieta os ânimos da humanidade. Tenta-se compreender a que ponto chegamos com a Crise Glocal (nome que pra mim, tenta dar conta da complexidade do momento e do movimento de modificação estrutural, social, politica e econômica construída após a 2 Guerra Mundial) - crise que expressa intensa troca entre o global e local - quando na realidade, essa crise pode ser pensada como uma construção conjuntural sem forma e heterogênea, a partir do final da década de 1970. Num repasse, temos crises ligadas ao setor petroleiro, uma proto-crise financeira, a lenta desestruturação da Social-Democracia, a retomada do impulso exploratório do capital, de caráter mais agressivo e humano-desagregador. A luta pela voz latino americana, a bela e angustiosa respiração das Africas, as espadas afiadas dos Tigres Asiáticos, fazendo o mundo dançar suas musicas hipnotizantes. Temos um socialismo derrapante, um capitalismo se achando triunfante e revoluções sociais, tecnológicas, culturais, pessoais colocando lenha na fogueira do Milênio com medo do Bug.
Bem provável que alguns de vocês já ouviram falar que a crise é reflexo de uma sociedade desiludida com a democracia e com o projeto capitalista, extravasando suas mais terríveis angustias e perdas no cotidiano. Não deixo de pensar na validade de tal proposição. As democracias que foram pensadas para "todos", na verdade, só alguns podem desfrutar. Pois o cerne da Democracia Moderna está invariavelmente ligada, desde ao projeto iluminista, a uma parcela da população que concebe de maneira muito específica os conceitos de liberdade, fraternidade e igualdade.
De um esfarrapado instrumento de trocas, à formação de um sistema unificador de economias, a massa amorfa do capital se transformou em capitalismo. Do doce gosto das especiarias às guilhotinas francesas, a transformação exponencialmente veloz do capitalismo, nos brindou com maior velocidade e rapidez a construção de uma aldeia global. De instrumento de caça a instrumento de combate e luta, a lamina do capital produtivo, e mais recentemente, o do financeiro, tem nos dado boas marcas na pele. Entre mortos e feridos, (ainda) estamos bem.
Eis que chegamos ao cotidiano, feridos pela inocência quase assassina do acúmulo indiscriminado, sem sabermos se o elixir da vida, ingerido em grandes quantidades é o veneno que destrói ou o remédio que salva. Se as ganas de obtermos mais em posses, em conhecimentos, em lucros, não fosse levada a frente, não compreenderíamos, por exemplo, o que é Ciência. A ciência é o fruto rico do capitalismo, do cotidiano. O cotidiano é fruto do cotidiano. A politica é fruto do mesmo fruto, assim como o capital. O homem é cotidiano, sua vida é repetir, provar, procurar, buscar. Cavando minas, fazendo o carnaval, descobrindo átomos, inventando a TV.
Somente ao adquirir estrutura e status de sistema, ciência, politica e economia foram passear no bosque, deixando o homem para sentir a sua perda. Esquecido, destronado, o homem se autoflagela, imperdoavelmente, não por criar belos frutos, mas por permitir que eles possam ter o poder de feri-lo. O homem extravasa no cotidiano a incapacidade de racionalizar o que de bom e de ruim pode cometer contra si, contra os demais, contra as "estruturas", perdido, sonhando com a Era de Glória dos tempos passados. Que não foram de glória, longe disso. Foram de perdas e ganhos. Porém, hoje, são pura nostalgia.

Homens poderosos caminham por tapetes vermelhos.
O tapete vermelho é um dos muitos vasos, de raízes capilares em que jorra o sandice humana de querer conservar. O homem moderno não passa de um respeitado senhor conservador, que sente a hemorragia dos novos tempos com sorrisos. A crise!? Ela vai bem, e vai perdurar durante um bom tempo. A crise é uma nova estrutura, ao lado da ciência, do capital. Ela é a expressão viva do cotidiano. A crise é o ponto máximo antes da mudança de conduta. E ela só passará quando o homem acordar de seus sonhos dourados de ventura e perceber que a vida é soma, diminuição, divisão, multiplicação. Por enquanto ele sonha com castelos de areia. Amanhã acordará sem nada, pois sonhou que não poderia perder o que não pode manter para sempre.
O "para sempre"? Sempre acaba. Sejam todos bem vindos ao teatro da vida. Luz, câmera, ação.

Menina de Pano. Só.

Segunda-feira, Outubro 24, 2011


O desenho no cabeçalho da página foi feito por Mary Blair, que foi durante muito anos, animadora, desenhista e ilustradora da Walt Disney. Sua arte é encontrada nas animações Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Cinderella, Dumbo, entre outros. Blair não é conhecida para o público, mas seu jeito único de desenhar inspirou muitos cartonistas mundo a fora, entre eles o escritor e ilustrador francês Alain Grée.


Alain Grée

Mary Blair



Dito isto, sigamos com as postagens.

Próxima!


Menina de pano gosta de coisa bonita e colorida. Igual as crianças.

Sexta-feira, Setembro 30, 2011

Dormem.

Livros me inspiram. Me vejo neles, me reconheço nos personagens de tempos em tempos.
Agora, o que não me escapa é o Bombeiro Montag de Fahrenheit 451.

A indiferença dos tempos futuros, a sensação de sermos enredados em fios tênues das teias socio-culturais, a insistência da "Familia", do fogo, os olhos poderosos que guiam a vida, a cidade, as casas. Tudo é rápido, é fugaz, é neutro na cor mas não no sabor. Cheio de sem-sentidos.
O perigo reside no outro, no poder do desconhecido, avulso e jogado sobre os Leviatãs da vez. Não importa o nosso rosto. O que importa é a guerra da imagem, a perda da palavra justa, o espectador do momento. Afinal, não se pode julgar um livro pela capa. Ainda sim, precisamos "queimar livros", correndo o risco de sermos queimados por eles. O livro da ignorância, da vaidade, da pobreza, da fome, do orgulho, do egoismo, pois aprendemos bem a ler estas paginas da vida, das quais não damos a minima importância em mante-los conosco. O bom homem é aquele que guarda para si, não o livro, mas a sua magistral essência que não deixa marcas.
Mas há o momento em que o fogo purifica até o mais belo livro, momento este em que deixamos o mundo dos livros, viraremos cinzas do passado, para nos tornarmos os livros do mundo. Quando isso ocorre? Quando o "comum" se torna sem sentido? Quando as expressões e os organismos da vida inspiram desconfiança? Quando a dormência nos atinge, ao ouvir os gritos dos homens palavrosos e alquimistas das novas fés?!

"Você é feliz, Montag?", pergunta a Jovem.
Não pelo fogo, ele responderia. Preferiu morrer para o mundo, queimando a si mesmo e sendo morto pela falsa imagem deixada para trás e nascer onde não se tem, onde apenas se é.


Menina de Pano vislumbra um terra sonambula assolada pela guerra do silencios.

Sábado, Julho 09, 2011

Coração nos Trópicos



Já fui amante de Napoleão, Sócrates, Cleópatra, Gandhi, Montezuma, Mandela, Felipe II, Da Vinci. Compreendi que eles queriam, acima de tudo, serem amados como eram. Eles, que sonhavam Liberdade e Vida, não viram seus amores se transformarem e amargaram mortes defendendo suas idéias e ideais... que muitas vezes não diferiram dos meus. Eu e eles, no mesmo mar de perda... buscando terras distantes. Já fui amante da pátria, mas desterraram meus usufruto, pelo gênio egoista que cercou o primeiro campo. Sou amante da letra, mas estou a ponto de perder o quadro, pelo descaso que a vida deseja. Por minha indumentária não estar na moda. Por apenas conseguir me vestir de pó de giz.
Hoje, rota, olho para o túmulo dos Homens e vejo a morte começar muito antes de suas vidas. Vidas que não olham para os homens, que superaram a aversão, tomaram a liberdade na plena juventude do agora e constroem com imediatismos a sã figura do ser eterno. Eterno por apenas um minuto fugaz, ao lado do peso imenso da responsabilidade de carregar o mundo nas mãos e não saber. Nada disso é, apenas pertence até o próximo dono aparecer. Nada disso vale a pena carregar. Nem livros, nem pão. E agora, eu... de anos de dedicação aos meus amores, como eles sou jogada ao chão.
Eu e meus amantes jogados na sala, a espera de atenção. Atenção que foi perdida pelo desencanto do mundo fácil, de atividades e jogos mais importantes, que merecem maior atenção. Ainda sim, nos cobram impostos, nos cobram bom vestir. Nos cobram atenção que nos dispensam ao primeiro olhar. "Volte ao lugar de onde veio". Nos cobram ilusão, sendo pagos com ilusão. Onde estamos colocando as mãos? Por onde calçam-nos os pés? Como estará o coração de tantos seres que nos espreitam cobrando de nós o que pouco temos para oferecer?Tenho receio de dividir na barbárie o pouco que me resta. O medo de ser tragada pelo escândalo de não saber perguntar. Quem não pergunta, está morto para vida. Foi barbarizado pelo dinheiro, escravizado pelo trabalho, atraído pela preguiça, aprisionado pela liberdade com a pretensiosa voz sedosa que murmurava "igualdade" e dançava ao lado de tantos outros com fraternidade.
Eu e meus amantes fechados, selados para sempre no escuro dos porões de ziper e velcro. Ao mesmo tempo amantes vagabundos, que só servem para carregarem no peito o escudo da vida e do conhecimento a serem exibidos aos demais. Muitos adoram, e somos banhados de luz fugaz, ao fechar de sorrisos no primeiro indicio de esquecimento. Renegados que fervilham a fogo baixo na mente de cada individuo, acusando-lhe a busca de sua própria ventura, calada na contagem das décadas. De costas, sempre de costas para eles. Enquanto sonhamos em estar de frente. Eles que não olham nos nossos olhos, não cruzam o nosso olhar. Eles que se voltam, presenteiam com desculpas, que nos esquecem nos arquivos burocráticos.
Eu e meus amantes estamos no final, a ponto de romper salas, livros, espelhos e caminhos em busca de outros amores. Estamos a ponto, gritando calados. Estamos. Ainda. Muitos morreram amando e renasceram em outros fazeres. Foram navegar no deserto. Ele chama a muitos, com voz suave. O deserto nos seduz, balbuciando a busca de um refugio para onde o coração não doa, os olhos não fechem de pesar. Um dia, o deserto que estará cheio de amantes, cheio de nós, enquanto a cidade ficará nua, a espera do primeiro grito de esperança e caridade. Acordando para o dia das ilusões perdidas, com muito o que fazer.


Menina de Pano pede giz, amor, ação e acima de tudo, mudança. Já.

Segunda-feira, Julho 04, 2011

Acertando Contos de Fadas.

Você já sentiu que poderia amar alguém por toda uma eternidade? Que esse individuo consegue resumir todos os seus sonhos? Já sentiu que ao lado da pessoa amada você não precisaria de mais nada para viver? E que tal aquela idéia de amar a ponto de sentir o coração doer de amor? De se doar infinitamente pelo bem, pela união, pelo amor? Já sentiu que como se a vida estivesse toda resolvida depois de encontrar o seu amor?

Já sentiu algum sintoma desses? Todos eles?

Eu também. E digo por experiência própria, nada disso é verdade.

Muito prazer, meu nome é Juliana, e eu não acredito em contos de fadas.

Faz tempos que esse assunto ronda a minha cabeça. Contos de fadas. Quando comecei a considerar a influencia dos contos da fadas na pisque feminina, assim como os seus efeitos conscientes e inconscientes, decidi rememorar a minha trajetória afetiva para entender de onde exatamente comecei a relacionar Contos de Fadas com as relações afetivas. Deixo claro que não sou psicóloga, estou longe disso. Mas isso não me impede de analisar racionalmente as relações humanas através do problema da consciência, quando envolvem sentimentos.

Bem, fazendo um resumo rápido. A minha trajetória sentimental se divide entre duas fases: Quando acreditava em contos de fadas e quando deixei de acreditar. Cheguei a essa conclusão depois de experiências que me apontaram que nas minhas ações passadas, eu me aproximava da figura da “donzela” que precisa ser salva pelo “príncipe” encantado. Aí a grande descoberta. Apenas precisei de certo distanciamento histórico e de um olhar neutro sobre o meu “eu” anterior para perceber o quão involuntário e ingênuo era o meu pensamento a respeito do que se esperar sobre relacionamentos. Sentimentais e interpessoais. A partir do momento em que essas ações se tornaram reais e palpáveis para mim, decidi investigar a cerne da solução. O que havia acontecido para haver o deslocamento da figura “donzela” para atual ainda sem rotulação mas previamente chamada de Juliana.

Descobri sem muita dificuldade, e nem precisei fazer muitas pesquisas. O ponto crucial de todos os problemas estava na falta do “eu”, que era substituído por um “outro", o “príncipe”. Como? O constante privilégio que eu dava ao “outro” vendo no “outro” a possibilidade de felicidade do “eu”. Uma substituição do “outro” pelo “eu”, uma cooptação das necessidades do “eu”, muitas das vezes beirando a submissão. Olha, vejam só. Isso me lembra sabe o que? Contos de fada! Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel, Branca de Neve, eram frágeis e submissas, parecendo quase como se houvessem sido criadas para esperar. E elas esperaram... Boa parte da História. Pois na realidade a história dos contos de fadas foca, a maior parte do tempo, na jornada do mocinho para salvar a mocinha. O príncipe no centro da História. Olha a interposição de papéis ai, e talvez como isso a ideia bata com um inconsciente infantil, que construiu sua visão sobre o “amor” espelhado no seu referencial próximo e continuo.

Todas as mulheres são assim? Não. Mas boa parte, e sem saberem.

Donas de casa, corretores de banco, prostitutas, gogo boys, financistas, empresárias, estudantes, casadas, solteiros, idosas, autônomos, empregadas, adolescentes. Ninguém está livre de pensar assim. O problema é como fugir da incoerência imposta pela necessidade salvação. Isso além de soar fantástico, soa cristão demais. A salvação pelo amor e pela fé cega. Peraí, nem Jesus quis dizer isso! Ele apenas disse que o amor posto em ação eleva os homens. Partindo de si, passando pelos homens e atingindo a Deus. Amai ao próximo como a si e a Deus acima de todas as coisas, disse ele. Esse Jesus, hein. Dando as cartas a mais de 2 mil anos e a gente ainda não aprendeu a jogar...

Okay, o amor salva. A submissão, a ingenuidade, o sentimentalismo não.


Então, respondendo as perguntas iniciais:

1- Não existe um amor para sempre. Para sempre é muito tempo, e ele existe para provar que que a vida se resume em amar, de diversas formas, a muitos. Quem sabe o mundo inteiro.

2- Resumir sonhos? Sonhos mudam. Pessoas também, inclusive nós.

3- Deixar a cargo de uma pessoa só toda uma vida é muito fardo. Seria bom dividir esse fardo com os demais. Familia, amigos, companheiros... Ser egoísta e ainda dar trabalho é complicado.

4- Quando doamos demais, ficamos sem nada. É ai que realmente a dor vem. E vem que vem forte.

5- Vida resolvida? Que baixa perspectiva de vida... Há tanta coisa pra fazer, tanto tempo pra viver!

O negocio é aprender a si amar. De um pé a bunda do príncipe (princesa) e seja a rainha do espetáculo, a história é sua e só sua. Chega de sentimentalismos. Não é ele que viverá a vida por você, sentirá ou amar como você irá. Não de presente o dom especial de ser você. Seja. Apenas isso. Mas seja razão na medida certa, querendo primeiro o bem para si e compartilhando com os demais. A balança equilibrada entre o coração e razão é uma medida ideal de se chegar, colocando em pesos e medidas iguais vontades, desejos e deveres. Quando o coração fala demais, pode tender a perda da identidade do eu. Quando a razão fala demais o eu infla seu ego. Então, vá, tome o projeto “eu” na mão e o coloque no quadro para análise. Ele sempre estará sujeito a mudanças, intervenções, reposicionamentos. Escreva os objetivos. Meça-os e deixe que o tempo, a vida e as relações se encarreguem de ajustar o nosso “sentir”. Mas lembre-se que você é que dá o tom.

Você acha ainda acha que existe alguém ai fora, perfeito para você?

Não se engane, porque pra começo de conversa, você não é perfeito(a). Então, tire os óculos cor de rosa e enxergue o “outro” como seu igual, com sentimentos e falhas. Seja segura do que quer, do que não quer... e siga. A vida ta aí para isso mesmo. A sua felicidade depende única e exclusivamente de você. Segure a suas vidas na mão e viva!


Menina de pano não acredita em contos de fadas, mas gosta dos desenhos da Disney.